A fábrica das próximas gerações


Já faz um tempo, numa madrugada da vida, liguei a TV e o Otto estava sendo "entrevistado" pelo Jô Soares. Otto é um cara meio doidão mas é inteligentíssimo, gosto das músicas dele, dessa coisa meio agreste indie e acho suas entrevistas sempre muito interessantes. Tinha tudo pra dormir feliz após assistir, só que o Programa do Jô não é exatamente um programa de entrevistas... é um programa de conversas. E o Jô Soares é meio metidão. Pausa. Deixe que eu explique porque penso isso.
Sabe o tipo de pessoa que gosta de exibir seus conhecimentos? O Jô me parece ser exatamente assim. Pelo menos, desde criança, tenho a certeza impressão de que ele gosta de mostrar ao convidado o quanto ele domina determinado assunto e isso, muitas às vezes, faz o que poderia ser uma entrevista monumental se tornar um desperdício de tempo e espaço na mídia. Não duvido que ele seja uma das pessoas mais inteligentes da TV brasileira, mas imagina que você é convidado pra divulgar um livro que está lançando e o cara que te entrevista, invés de demonstrar interesse pelo seu ponto de vista sobre o assunto abordado no livro, começa um monólogo expondo o quanto sabe sobre o que o Conde Dietrich pensava das queimadas nos Alpes Suíços e sua relação com a extinção dos unos e quando termina de falar te sobram 2 minutos (tempo suficiente apenas para repetir o nome do livro, a editora e afins) e acabou. Claro que de qualquer forma você ganha uma divulgação monstro pro seu trabalho, porque aparece na Globo, num programa da categoria dos formadores de opinião, mas mesmo assim não me parece muito legal. Mas, isso não interessa tanto, voltemos ao Otto.
Na conversa, ele questionava sobre a educação que um policial corrupto dá aos seus filhos, mas o Jô não estava muito interessado em falar sobre isso, queria que ele falasse sobre a Alessandra Negrini. Me lembrei dessa entrevista na semana passada. Tava no ônibus, indo pro trabalho, acabei ouvindo a conversa de dois meninos que estavam na poltrona de trás:

- Ontem eu achei um celular e devolvi. Mas avisei lá: da próxima vez que eu achar, vou quebrar!
- Porque não pegou pra você?
- Meu pai vai me dar um novo. Se ele não me der, eu arranho o carro dele.

Também no mesmo ônibus, duas mulheres de aproximadamente 40 anos reclamavam dos estudantes (que por lei viajam sem pagar passagem) sentados enquanto havia pagantes em pé. Reclamação justa. Mas nos horários em que não há estudantes e o ônibus está cheio, essas mesmas pessoas não levantam para ceder seus lugares para idosos, grávidas, deficientes ou pessoas com bebês no colo. Adivinha o que elas são? Mães e pais de estudantes que não levantam. Os estudantes, muitas vezes, tomam seus pais como exemplo.
Aí se encaixa a observação feita pelo Otto. O que será das próximas gerações com atores tão ruins no papel de pais? Que tipo de valores essas pessoas tem capacidade de passar para seus filhos? As pessoas querem ter filhos mas não querem a responsabilidade de educar, acham que podem passar essa bola para a escola, para a igreja, para a televisão, para o governo... E o pior é que isso é um ciclo vicioso, acho que a tendencia é piorar porque esses filhos mal educados (no sentido literal da expressão) vão ter filhos que serão ainda piores.

Tem gente que devia ser proibida de ter filhos.


Ouvindo: Ximena Sariñana - Mediocre


Silvana Persan

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

4 comentários:

  1. Passei uns 2 ou 3 anos da minha vida programando o vídeo cassete (nuuuoooossa) pra gravar os programas do jô... até q um dia percebi q o programa do jô era uma espécie de programa de conhecimentos gerais dele mesmo... onde o convidado sentava na cadeira e levantava o tema... e depois disso... o jô mostrava o quanto era pedante e soberbo...

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  3. O Jô é o tipo do cara que é muito inteligente, mas que tem que estar sempre mostrando isso pra todo mundo. As vezes nem é por mal, as vezes só quer compartilhar a sabedoria dele, enfim. Nunca fui muito fã do programa dele mesmo.

    Sobre a educação dos nossos jovens, é realmente pavoroso o cenário que está se formando (escrevi bonito agora, vou até anotar isso pra não esquecer). Já na escola eu notava que os caras mais cretinos tinham também pais cretinos, isso é foda. E como você disse, tende a piorar essa situação

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  4. Faz tanto tempo que não assisto o programa do Enjoô Soares...enjoei do "não querendo te interromper - mas já te interrompendo". Isso foi legal quando surgiu, cansou depois de um tempo e hoje é insuportável - sabe quando o entrevistado está desenvolvendo um raciocínio legal e de repente tem aquela "quebra"? Chato isso...

    Outro dia eu gastei preciosos discutindo - vou confessar, é vergonhoso, mas vá lá - em uma comunidade do orkut (!!!) sobre os chamados "valores educacionais e de comportamento".

    Eu dizia que a escola tem a sua função que deve ser cumprida, mas os pais não podem, de maneira nenhuma, abdicar de sua responsabilidade e que mesmo a sociedade tem uma parcela a contribuir na educação de nossas crianças e jovens.

    Um participante da comunidade dizia que era a escola a responsável pela educação geral, que a família hoje mudou, essas coisas todas. Que o formato de família vem modificando é verdade, mas as responsabilidades, elas continuam as mesmas, sobretudo quando falamos de filhos e educação.

    E hoje o quadro é o seguinte: os pais esperam muito da escola, a sociedade espera muito da escola, o governo espera muito da escola e a escola à espera de um milagre para dar conta de tantas atribuições.

    Era Paulo Freire que já dizia sermos todos educadores e aprendizes. Esperar que só a escola - ou outras instituições - resolvam certos problemas é querer milagre. E eu digo que não é mais tendência, já é realidade essa "piora".

    Um abraço!

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Aqui você fala sobre o que bem entender, mas eu vou achar mais legal se você falar sobre o assunto do post. E se você vier só pra fazer propaganda, mando um monstro puxar seu pé de madrugada!